quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os Portões.

Lentamente. E apresentaram uma fortaleza logo atrás. Colossal, com quatro torres de tamanho igual, duas de cada lado e uma torre maior ao centro, trazendo consigo uma fênix dourada no topo. Ao alto, um céu cheio de azul e nenhuma nuvem, apenas o Sol que iluminava forte a construção. Sua entrada era concebida por uma ponte de concreto, que ligava os portões à ilha voadora que encontrava-se o castelo, no meio da ponte, uma estátua de bronze. Ao longe vi e achei que fosse um querubim. Pelos lados, corriam dois rios, também grandiosos. À direita, um rio corria dos portões ao castelo, à esquerda, do castelo aos portões. Eram os Rios do Ciclo e representavam a eternidade do viver.
Manadel parou e disse que, ao atravessar o portão, meu corpo estaria indo ao encontro de outro plano e, possivelmente, não voltarei eu sendo como sou.
Respondi confessando não ter entendido o motivo desse acontecimento. Sua resposta foi clara:
- Ao adentrar em glorioso terreno, todos os teus pecados serão-lhe tirados.
- Quanto esse exorcismo me custará?
- O problema é que vocês, humanos, já nasceram prédestinados ao erro e, estes, por sua vez, acabam fundindo-se à personalidade.
Entendi o que me foi dito e confesso não ter tido coragem de dar o primeiro passo.
Fechei os olhos e respirei fundo. Veio-me à mente tudo que foi vivido no decorrer desse ano e, se ali estava, nada mais a perder eu teria.
E entrei.
O segundo passo foi impedido pelas luzes que acertaram meu corpo. Levantaram-me alguns metros dos chão e em pleno ar começaram a retirar tudo que não era permitido ali.
Vi passar diante dos meus olhos toda a minha imaginação masoquista, toda a sede vingativa que me alimenta, todo o temor... toda uma lista interminável de imperfeções.
Saíam de mim como peças de quebra-cabeças e se desfaziam no ar, deixando para trás apenas um pequeno pedaço de pele, que já era absorvido pelo solo da ponte.
Vagarosamente, fui devolvido ao chão da ponte. Respirei fundo e aconteceu algo que nenhum dos anjos pensou:
Tudo que havia saido, voltou ao meu corpo. Não perceberam o fato de eu estar vivo e necessitar de oxigênio. O ar perto de mim estava infectado por tudo que me foi tomado e, nesse respirar, voltaste tudo para meu ser.
Agora, é tarde demais. Já atravessara os portês e nada nem ninguém mudará esse curso.

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