sábado, 12 de dezembro de 2009

As Salas.

Cada passo que nascia era atrelado ao medo e eu tremi todos na linha que eu criei para seguir. Respirei fundo quando cheguei perto da porta e só soltei o ar quando a abri pro completo. Mas confesso não ter olhado para dentro no primeiro segundo que tive, pois os olhos eu fechei.
A sala era um cubo branco com uma luz de teto, apenas isso. Entrei e Manadel me seguiu. Olhei para trás, para a porta, queria saber se os deuses vinham, mas eles apenas fecharam a porta.
Ao me virar para o centro da sala, percebi que surgira uma mesa, uma cadeira e um cigarro junto ao cinzeiro com o isqueiro.
Há inspiração no Paraíso.
Manadel se dirigiu à cadeira cadeira, a puxou e sentou. Encostei-me na parede e nada disse, nada pensei, nada fiz.
O primeiro cigarro aceso foi dele.

Após um minuto de silêncio, percorri todo o perímentro da sala e vi que as paredes brancas pediam por enfeites. Precisava colocar ali algo que marcasse a minha presença, quis desenhar. Junto do pensamento me surgiu a mão um pincel. No mesmo local que me foi dado, parei e passei a riscá-la. De começo, estrelas. Depois stratus, rostos e frases. Manadel ainda fumava.
Fiquei impaciente, no mesmo instante que ele também e trocamos de posição. Sentei-me na mesa, acendi um cigarro e me pus a observá-lo. Era tão hiperativo quanto eu e logo se colocou a rabiscar as paredes. Começou pelas frases que eu não entendia. Depois criou rostos que não tinham sexo, spissatus e constelações.

Ele realmente era eu.

Quebrando toda a atmosfera de silêncio e levando a fumaça do cigarro embora, a porta se abriu e os deuses se apresentaram, nos convidando a sair.
- Isso nunca antes acontecera. É fato de que nenhum outro humano chegara até aqui, mas sabíamos por sua índole que tentaria sair de lá.
- Não pensei nisso um segundo sequer.
- É exatamente esta a parte que nos deixa inquieto mas, apesar disso, você encontrou uma parte da resposta. Por isso, nos siga.

Novamente, o centro era outra escada, que dava a outro círculo abaixo de nós, formando uma terceira coluna que se encaixava perfeitamente no superior. Essa escada também me fora complicada pelo mesmo motivo da anterior.
Seu jardim, por sua vez, não era um jardim. Onde deveria haver plantas, havia água com peixes de cores discretas, ilumidos por lâmpadas, também discretas, dentro da água. A formação era a mesma, mas não haviam portas.
- O que tu sentes aqui?
- Que falta algo.
- E falta de verdade. Agora, vamos achar a falta.

Depois de tanto descer, subimos. No primeiro jardim, chegamos.

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