quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Suicídio.

Papel, como as cartas que fiz e não tive resposta. Ou como as fotografias que envelheceram pela solidão ter virado presença.
Até as palavras perderam a ordem.

Uma pétala caiu.

E assumo que errei, que eu errei. Por isso eu gritei. Sabia que minha voz queria externar esse erro, mesmo que fosse dúbio o sentimento que havia em mim. E sem que eu soubesse que havia sido feito longe do certo.
Gritei alto, minha vida dependia disso.
Ergui minhas mãos em direção à primeira nuvem que passou, e gritei mais.
Balbuciei palavras de extremo desespero, desfiz a gramática, deixei tudo enfermo.
Trouxe os punhos do alto em direção ao meu peito, lentamente, dilacerando cada centímetro de carne que meus dedos pudessem tocar. Tentei chegar até meu coração, mas uma camada de osso impediu o meu desenho.
Derramei sangue, minhas células choraram.
Quis que fosse noite, quis que fosse trevas, que fosse tudo o mais dantesco possível.
Desgracei a minha existência proferindo uma maldição, tinha absoluta certeza de que a Morte me levaria naquele segundo,
mas não levou.
Pareceu que vivi aquele instante, somente, para sentir o amargo gosto de estar errado escorrendo por minha boca.
Gritei ainda mais.
Surgiu um plano de fundo musical na minha mente e atrelei o ritmo à arritmia acelerada que me fazia tentar arrancar minhas válvas. Não consegui.
Chamei pelo Inferno, nada apareceu.

Outra pétala caiu.

Chamei pelo Paraíso, nada apareceu.
Chamei, por entre orações, por todos os deuses que conhecia. O que recebi em troca foi um riso macabro vindo do nada, que cortou todo o meu canal auditivo, até eu ter um ataque de síncopes convulsas.
Gritei ainda mais.
Desacertei outras palavras que tanto me baseio para vangloriar abraços, desacertei mais batimentos cardíacos e perdi o ar.
Eu tentei o suicídio, abrindo meu peito em direção ao norte, mirando a morte e uma fonte onde os antigos sentiam medo ao atravessar.
Perdi os sentidos, todos eles, engasguei-me com o sangue que jorrava em meu rosto (e gostei do acontecimento).
Até que desmaiei, depois de errar tudo o que havia acontecido, ter perdido toda a linearidade dos fatos, ter feito da gramática a minha declaração alcóolatra em um dizer psicopata de um 'te amo'.

Outra pétala caiu.

Eu fracassei.

A Flor.

Nasceu uma flor, quebrando o concreto gélido como se rasgasse papel.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A Vontade.

Surgiu, virou parte determinante de mim.
Destilei-me.
Vontade de chorar, nada mais, apenas isso ser, sem temer nem dever, apenas fazer e lá, naquele canto, ficar.

Voltei à minha casa trazido pelo Vento frio que soprava da tempestade que estava por vir, ouvindo o dialeto de quando a Terra era jovem, quando só haviam os Elementos, a Magia e nada mais. Tempo que havia Paz, nenhuma Dor.
E aquele ar gelado me falou:
- Acalma-te, criança. Sou tão velho quanto os Cosmos, sou de um tempo que não existe ruindade e lhe digo, com toda a experiência de quem ronda a existência, que tudo há de melhorar.

Minha Casa me recebeu, enquanto ainda lágrimas saíam e me acolheu.
Vagarosamente se envergou, protegendo meu ser, assim como uma mãe protege um filho em câncer terminal, ou o tenta. Abri os olhos e vi toda essa construção tremer.
Essas paredes sabem o que me fere, sabem o que me confortam; todo cômodo expõe claramente.

Seguiam o estilo da Casa os outros Ventos que passavam, sutilmente desviando sua rota para me acariciar, levando-me à melhoria. Abraçaram meu corpo, trataram-me como criança e se importavam comigo.
São eles os pais da piedade, do perdão e os precursores da amizade.

Lenta e dolorosamente, amanheceu. E, junto do céu, nasceu algo em minha frente que eu não conseguiria explicar através das palavras que conheço.

A Realidade.

A realidade não era diferente.
O fato de eu estar, de verdade, entre cantos ermos e ruas bêbadas, não quer dizer que eu estivesse melhor.

Eu não estava, eu não estive, eu não estarei e eu não estou.
Por algumas semanas, fui martírio de mim.
Culpa das manhãs cinzas, que acordavam-me com o coração pesado, ou culpa das árvores, que morriam com o ar sulfúrico da cidade.

Foi, então, quando ela me reapareceu, e eu temi.
- Não faça nada comigo, por favor.
- Por que não, se sou a deusa que decide quem vai e quem fica? - havia um tom sinistro em sua voz.
- Porque eu sinto que tenho algo a deixar aqui, embora seja seguidor do Inferno.
- Então, tu há de vir, agora, comigo. - o mesmo tom insiste em reaparecer.
- Não, por favor.
- Não tenha medo, não foi por tua alma que, hoje, vim. - agora, era sonoridade doce.
O rosto da Morte, lentamente, tornava ao de uma bela mulher.
- E por quem foi?
- Tu não tens direito de saber o que faço, ou deixo de fazer.
A maneira como ela me respondia, fazia com que o medo nascesse outra vez. Eu não entendia o motivo de haver tanta frieza e, ao mesmo tempo, brutalidade em sua voz. Senti suas palavras entrarem feito ácido em meu corpo, enquanto aqueles olhos fortes examinavam-me por todos os átomos de mim.
- Serás alvo indireto do meu ato, perderás um pedaço de ti e eu não queria ter que deixá-lo assim.
E, teatralmente, desapareceu, por entre as nuves e as luzes da rua.
Por décimos de segundo, senti um tom dolente em sua voz, e não teve sentido a sua mudança de personalidade.

O chão úmido da rua me pareceu tentador, sentei, olhei para os céus e, lá mesmo, as horas passaram como segundos.
'olhai para as nuvens à procura de razão, tomai como parecer a tua mais singela vontade e realize-a, mesmo que não haja um caminho certo no primeiro pensamento que tiver'
Só falta a vontade surgir.