sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Que Faria Sentido.

Eu não era vida, eu era ausência, eu fui carne, eu sou medo.
Caminhei, não tinha nada que pudesse ser tomado de mim.
Ouvia os gemidos dos que sofriam o eterno tormento infernal, sentia o gosto sulfúrico, que me faz bem, de sangue. Para todo lado, havia dor.
Borboletas escuras, tão negras quanto a tarja da minha droga favorita, voavam pra lá e pra cá, dizendo a presença que estava no ar: morte. Por uns segundos, o vazio que era meu coração acelerou, mostrando-me o desespero que ainda havia em mim.
Seguindo em frente, achei o rio que atravessa o Reino e seu Maestro: Aqueronte e Caronte, respectivamente. A travessia me foi de graça, ele sabia que eu estava ali por um motivo e não, simplesmente, por não mais viver. Após o rio, vem o guardião: Cérberus, negro como a própria trevas, olhos vermelhos como o ódio, com sua fome insaciável de almas, devorando condenados nos portões do Inferno e, logo, vomitando-os para completar o ciclo.
Na entrada, acima, havia 'tua vida será tomada e, nesse momento, serás sofrimento'.
Demônios me esperavam e abriram o caminho, senti que um deles me era familiar. O que voava mais alto, o que parecia ser mais forte e dominar os outros, veio perto de mim o bastante para que eu pudesse sentir o cheiro de enxofre que despregnava dele.

- Siga-me.
- Quem é você?
- Cala a boca e me siga.
- Por que?
- Porque você, ainda, não está aqui para toda a eternidade e, a não ser que o queira agora, é melhor que me obedeça. Sou Lúcifer e mando no que se mexe.
(*)Não o obedeci.
- Então porque viestes me receber?
- Terei imenso prazer em torturá-lhe para sempre, serei teu próprio temor - disse-me amargamente.

Ao longe, veio surgindo, linda como me era, apaixonante-me, como sempre foi.
-Chega! - disse a Morte - agora - sutilmente falando - siga-me, por favor.
(*)E eu fui.

Levou-me ao castelo, regido por anjos caídos e enfeitado com sangue e ossos. O céu negro ainda dominava a paisagem, com nuvens carregadas que pairavam por cima da construção colossal, demonstrando a tempestade que nunca chegaria.

Ela me disse que sabia da minha tendência àquele submundo, que admirava em mim o que não existia nos outros humanos. Eu não temia a morte, era apenas um submisso da saudade e um poeta que se encontrava perdido entre sentimentos, e ela sabia disso. Explicou que, por esse motivo, estaria à minha disposição, quando me fosse necessário, comensais da morte, para o que eu quisesse e para o que lhes fossem cabível.
Ao final de toda essa explicação, a Morte veio mais perto de mim.
O sanguão de entrada era estranhamente excitante com aqueles corpos jogados nos cantos e os enfeites macabros.

Ela me beijou.

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