Eu não era vida, eu era ausência, eu fui carne, eu sou medo.
Caminhei, não tinha nada que pudesse ser tomado de mim.
Ouvia os gemidos dos que sofriam o eterno tormento infernal, sentia o gosto sulfúrico, que me faz bem, de sangue. Para todo lado, havia dor.
Borboletas escuras, tão negras quanto a tarja da minha droga favorita, voavam pra lá e pra cá, dizendo a presença que estava no ar: morte. Por uns segundos, o vazio que era meu coração acelerou, mostrando-me o desespero que ainda havia em mim.
Seguindo em frente, achei o rio que atravessa o Reino e seu Maestro: Aqueronte e Caronte, respectivamente. A travessia me foi de graça, ele sabia que eu estava ali por um motivo e não, simplesmente, por não mais viver. Após o rio, vem o guardião: Cérberus, negro como a própria trevas, olhos vermelhos como o ódio, com sua fome insaciável de almas, devorando condenados nos portões do Inferno e, logo, vomitando-os para completar o ciclo.
Na entrada, acima, havia 'tua vida será tomada e, nesse momento, serás sofrimento'.
Demônios me esperavam e abriram o caminho, senti que um deles me era familiar. O que voava mais alto, o que parecia ser mais forte e dominar os outros, veio perto de mim o bastante para que eu pudesse sentir o cheiro de enxofre que despregnava dele.
- Siga-me.
- Quem é você?
- Cala a boca e me siga.
- Por que?
- Porque você, ainda, não está aqui para toda a eternidade e, a não ser que o queira agora, é melhor que me obedeça. Sou Lúcifer e mando no que se mexe.
(*)Não o obedeci.
- Então porque viestes me receber?
- Terei imenso prazer em torturá-lhe para sempre, serei teu próprio temor - disse-me amargamente.
Ao longe, veio surgindo, linda como me era, apaixonante-me, como sempre foi.
-Chega! - disse a Morte - agora - sutilmente falando - siga-me, por favor.
(*)E eu fui.
Levou-me ao castelo, regido por anjos caídos e enfeitado com sangue e ossos. O céu negro ainda dominava a paisagem, com nuvens carregadas que pairavam por cima da construção colossal, demonstrando a tempestade que nunca chegaria.
Ela me disse que sabia da minha tendência àquele submundo, que admirava em mim o que não existia nos outros humanos. Eu não temia a morte, era apenas um submisso da saudade e um poeta que se encontrava perdido entre sentimentos, e ela sabia disso. Explicou que, por esse motivo, estaria à minha disposição, quando me fosse necessário, comensais da morte, para o que eu quisesse e para o que lhes fossem cabível.
Ao final de toda essa explicação, a Morte veio mais perto de mim.
O sanguão de entrada era estranhamente excitante com aqueles corpos jogados nos cantos e os enfeites macabros.
Ela me beijou.
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