Do presente direto ao quarto. Lá, num piscar de olhos, lágrimas banhavam o medo e eu percebi o que estava acontecendo. Voltei para mim, recobrei a sanidade. E tudo que eu vivi momentos atrás pareceu uma eternidade distante.
Foi estranho acordar daquele estado de sonambulismo e perceber o que havia nas minhas mãos.
Mais uma vez, a Morte demonstrou calma, sentando-se ao meu lado na cama que parecia se alegrar com meu temor. Agora, sua divindade havia sido desfigurada, levando embora toda a grandiosidade, sendo naquele momento uma mera falsa-mortal, vestida com trapos e algumas dezenas de anos mais velha.
Eu não soube o que dizer e, por esse motivo, desconheço as palavras a serem usadas agora.
Lembro que foram mais de algumas horas naquela situação, sendo eu o infeliz que cuspia sentidos sem sequer ter uma direção para falar. Apesar disso, a Morte não saiu do meu lado.
Até que eu o pedi.
- Me deixe só.
- É o que queres?
- Tenho que falar outra vez para que tenhas certeza?
- Não se atreva a responder-me com esta ousadia.
- Cale a boca. Eu sou seu Imperador e tu há de obedecer-me, minha Imperatriz - disse com um leve tom de prazer por poder humilhá-la.
Ela olhou ao chão e eu senti, pela primeira vez, aquele ser se amaciar e, sutilmente, ela confessou:
- Eu amo você, desde a primeira vez que lhe vi e, mesmo assim, ainda ouço-lhe falando sobre suadade, sobre sofrer e, eu, que sofro e sinto saudades eternas por ti, crio soluções para teus sentires. E você some.
Na mesma sutileza, quase unindo minhas frases para abraçá-la, eu respondi:
- Saia, por favor.
E ela saiu.
Aqueles lençóis me serviram de proteção de mim mesmo. Deixei-me vivo apenas por saber que, pior que morrer para sempre, é viver todo dia e morrer um pouco a cada dormir. Mas o conforto da cama não seria o bastante para me livrar do mar que meu choro fez nem dos cnidários que vinham de encontro a mim quando eu me afogara.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário