A realidade não era diferente.
O fato de eu estar, de verdade, entre cantos ermos e ruas bêbadas, não quer dizer que eu estivesse melhor.
Eu não estava, eu não estive, eu não estarei e eu não estou.
Por algumas semanas, fui martírio de mim.
Culpa das manhãs cinzas, que acordavam-me com o coração pesado, ou culpa das árvores, que morriam com o ar sulfúrico da cidade.
Foi, então, quando ela me reapareceu, e eu temi.
- Não faça nada comigo, por favor.
- Por que não, se sou a deusa que decide quem vai e quem fica? - havia um tom sinistro em sua voz.
- Porque eu sinto que tenho algo a deixar aqui, embora seja seguidor do Inferno.
- Então, tu há de vir, agora, comigo. - o mesmo tom insiste em reaparecer.
- Não, por favor.
- Não tenha medo, não foi por tua alma que, hoje, vim. - agora, era sonoridade doce.
O rosto da Morte, lentamente, tornava ao de uma bela mulher.
- E por quem foi?
- Tu não tens direito de saber o que faço, ou deixo de fazer.
A maneira como ela me respondia, fazia com que o medo nascesse outra vez. Eu não entendia o motivo de haver tanta frieza e, ao mesmo tempo, brutalidade em sua voz. Senti suas palavras entrarem feito ácido em meu corpo, enquanto aqueles olhos fortes examinavam-me por todos os átomos de mim.
- Serás alvo indireto do meu ato, perderás um pedaço de ti e eu não queria ter que deixá-lo assim.
E, teatralmente, desapareceu, por entre as nuves e as luzes da rua.
Por décimos de segundo, senti um tom dolente em sua voz, e não teve sentido a sua mudança de personalidade.
O chão úmido da rua me pareceu tentador, sentei, olhei para os céus e, lá mesmo, as horas passaram como segundos.
'olhai para as nuvens à procura de razão, tomai como parecer a tua mais singela vontade e realize-a, mesmo que não haja um caminho certo no primeiro pensamento que tiver'
Só falta a vontade surgir.
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